Curadoria Inclusiva - Hering por Meu Corpo é Real

November 26, 2018

por Michele Simões

 

Minha relação de encanto com a Hering já vem de longa data, me lembro da alegria que foi, após tempos sem usar nada com a  minha cara, finalmente encontrar uma peça, que eu pudesse vestir sem ajuda, foi uma baita injeção de ânimo, afinal meu corpo havia mudado e sem referências para entender o que poderia me favorecer, a minha vontade de comprar roupa ia minguando a cada tentativa frustada.

Sempre fui adepta da cor, das modelagens exageradas, das peças que você olha e já dizem que ali por trás existe uma personalidade um tanto quanto forte - Gêmeos com ascendente em Leão né mores!

Para quem não sabe, me tornei paraplégica em 2006 após um acidente de carro, e a saga para me encontrar novamente na moda foi um tanto quanto penosa. Foram alguns anos buscando referências e marcas onde eu pudesse reencontrar a Michele, que antes ficava em pé e usava salto 10, mesmo com seus 1,74 de altura. Quem disse que eu não era a mesma? O mundo, que a todo momento tentava me convencer com suas lojas sem provadores, com seus atendentes despreparados ou com suas peças, cujas modelagens já não eram mais para mim. 

Eu fazia parte do combo padrão alta e magra, o que durante um bom tempo me vetou de perceber o quão importante essa ferramenta era na vida de pessoas, que assim como eu hoje, querem se ver e se perceber como são. 

Foram muitas decepções até entender que algo estimulava esse ciclo de total invisibilidade pelo qual um cliente  com deficiência passa, ao tentar consumir produtos do setor  - a total falta de informação sobre esse assunto por grande parte da cadeia têxtil. Como você se veste? Como você faz para provar suas roupas? Tão linda na cadeira de rodas, são parte do diálogo entre clientes com deficiência e pessoas que atuam nesse segmento tão pouco explorado pelos corpos fora da curva.

Pensar na Inclusão é ter que se trabalhar em diferentes searas, e foi através da comunicação na moda que eu resolvi atuar. O resultado disso, ainda não conseguimos ver claramente, porém prefiro continuar a construir  pontes que possam sim estreitar laços e abrir novos diálogos, onde o consumidor e as marcas possam começar a se entender, sem medo de errar.

 

Parceria com a Hering:

 

A sensação de não parecer estar indo eternamente a fisioterapia foi o que despertou minha admiração  e identificação com a  Hering, afinal eu queria sim ter algo que parece tão comum a maioria, mas que para  pessoas com deficiência raramente acontece - ter o poder da escolha.

Cansei de comprar peças por causa da funcionalidade, da modelagem que não machucava e facilitava minha vida na hora de vestir, mas que no espelho passavam longe de representar a Michele que eu gostaria de apresentar ao mundo.

Me lembro bem, foi no meu aniversário de  28 anos que decidi  me libertar das calças legging e me permiti experimentar, e após algumas VÁRIAS tentativas, encontrei num sobretudo de moletom da marca,  aquilo que eu tanta buscava - IDENTIDADE.

Obviamente que ainda estamos num processo embrionário quando o tema é design inclusivo, e no caso dessa parceria não estamos falando sobre peças adaptadas, mas sim de experiência de compra na prática. Ninguém anda pelado, certo? Poder fazer escolhas menos impessoais e que atendam a certas demandas do nosso dia a dia como PCD, faz com que o nosso repertório de moda aumente aos poucos, e de certa forma também reforce nosso papel como consumidor, informando tanto aos clientes, como as próprias marcas sobre as nossas demandas e preferências.

 

As peças que funcionaram para mim:

 

Como alguns sabem, sou consultora de imagem e estilo, então além da funcionalidade, as peças que selecionei seguem o meu plano pessoal de estilo e rotina. Começando pelas calças, selecionei 3 modelos que são muito versáteis e atendem a essas categorias mencionadas:

 

- calça reta de moletom

- calça reta de plush

- calça Flare jeans com elastano

 

 

Primeiro ponto - atenção aos tecidos - perceberam que todos são bem flexíveis? Tanto o moletom, como o plush além de molinhos, são peças que me esquentam nesses dias congelantes em SP, porém esqueçam da expectativa de me ver num lookzinho fitness, ok? Gosto de misturar estilos, e por isso selecionei  essas 3 opções para quem precisa cumprir uma agenda de compromissos entre trabalho, reuniões, aulas e até um barzinho no final do dia.

 

#dica1: a calça reta preta te dará mais possibilidades de montar um look social ou casual

 

#dica 2: a calça de plush com a listra lateral tira a sobriedade do look e alongam as pernas daqueles que gostam desse biotipo.

 

#dica 3: a calça Flare para quem tem as pernas muito compridas e ficam na cadeira, tem mais chances de não ficarem curtas, pois quase sempre elas contam  com uma modelagem mais longa. Além disso, esse modelo tem a cintura mais alta, o que para quem fica sentado ajuda a não pagar aquele cofrinho (primeira foto do post ).

 

 

Blazer cinza de moletom

 

Deram uma olhada no blazer cinza? Há anos no Fashion Day Inclusivo - evento que realizo nos hospitais de reabilitação - falo sobre esse coringa. As linhas retas da alfaiataria sempre trazem uma elegância a mais no look, então se você não se entende com o caimento daqueles tecidos mais planos e durinhos no momento de tocar a cadeira de rodas, eu sugiro esse modelo em moletom. Grande parte das dúvidas que recebo dos cadeirantes, esta em conseguir montar looks menos esportivos, porém sem perder o conforto;  essa peça por sinal é super quentinha, e a cor neutra ajuda a otimizar as combinações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cereja do bolo - Trench Coat 

 

Não sei vocês, mas eu sempre fui fascinada por esse modelo de casaco, porém quase todas as minhas tentativas de adquirir esse modelo foram frustradas. Era a gola que subia e me deixava toda troncha, ou era a cava que prendia meus braços para tocar a cadeira, enfim eu sempre pegava a peça toda feliz e terminava me achando o inspetor Bugiganga.

 

Mas quem espera sempre alcança e como podem ver ele ficou incrível - o truque que eu uso para a peça não ficar saindo do lugar é acertar bem a parte de trás e não deixar ele amarrotado na lombar, outra dica é colocar o máximo possível atrás do bumbum, porém sem prender os movimentos dos braços, isso pode ajudar bastante para o casaco não subir tanto. O tecido é super levinho  - 100% algodão -  o que facilitar para vestir e se movimentar, além disso em termos de investimento vale cada centavo. Como consultora de imagem, sempre que posso recomendo a compra de peças em fibra natural, pois além do toque ser outro, a durabilidade também é bem maior.

 

 

 

 

 

A Parka Verde

 

 

Essa peça foi uma grande surpresa, já que sempre tive dificuldade em me ver nesse modelo de casaco, por ser muito largo e contar com um capuz. Para aqueles que como eu, tem lesão medular, as épocas mais frias são uma verdadeira tortura, então poder empilhar algumas camadinhas de blusas por baixo desse casaco sem parecer estar pronta para dormir foi uma descoberta. A estampa floral deu um up e apesar do casaco ser mais larguinho, achei que o caimento ficou incrível! Pra dar aquela modernizada arrisquei um mix de estampas, e para o vestido não ficar muito curtinho, usei  uma meia-calça mais grossinha  com botas, que no caso acompanham bem o peso visual do casaco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vestidos

 

Não sou a maior fã de vestidos, mas confesso que quis tentar algo diferente, então optei por 2 Longuetes - não curto muito ficar com as pernocas a mostra.  Ambos em malha, já saem na frente com vantagens como a elasticidade e o caimento, além disso, essa peça para quem faz cateterismo é uma mão na roda (não contive o trocadilho). Quem esta começando a buscar mais independência no momento de se vestir, sabe da dificuldade que é usar calças, portanto recomendo testar alguns vestidos nesse início. Fui direto no clássico P/B e no fundo Azul marinho que neutraliza bem, apesar da estampa (ele esta na foto com o Trench coat).

 

Por mais longe que ainda estejamos de encontrar uma sociedade preparada para receber pessoas fora do padrão comum (isso não inclui apenas deficientes não, viu?!), buscar opções e caminhos para se integrar ao mundo e se pertencer é uma escolha que cada um pode fazer.

A moda foi a linguagem que escolhi para isso, sendo estilista ou consultora estilista, gosto de testar e misturar tudo que possa caber no meu mundo, e nele só não servem o não pode ou o velho "isso não é pra você". 

 

Créditos:

 

Maquiagem: Mauro Marcos

Fotografia: Ariana de Lima e Gabriel Bertoncel

Estúdio: E3FOTOGRAFIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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