Autora lança livros infantis que propõem de forma lúdica, questionamentos sobre estereótipos e padrões estéticos

December 17, 2018

 

 

“O livro Madeixas faz um paralelo com a criatividade, vivacidade e curiosidade das crianças. Não seria interessante entender cabelos como pensamentos? Quanto mais domamos os nossos cabelos e a nossa aparência, menos autênticas seremos”

 

 

 

 

Entre seus inúmeros papéis como ser mãe, pedagoga, surfista e escritora, Paula Tura, 44 anos nunca deu muita bola para as convenções sociais. A segunda vez que encontrei com a Lia, sua filha na época com 4 anos, fiquei intrigada, afinal como aquele serzinho tão pequeno, já era capaz de questionar centenas de frases prontas e de um certo modo castradoras que nós adultos costumamos reproduzir na tentativa de ter uma resposta pronta?  O “porque sim” passou longe de convence-la e em apenas algumas horas, comecei a perceber que aquele modo autômato de tratar crianças enquanto os adultos conversavam na sala, jamais haviam feito parte de sua rotina, ainda bem! 

Explicar e entender o mundo dentro de sua mais ampla diversidade, dá trabalho, leva tempo e te faz pensar em coisas que talvez não sejam tão confortáveis; mas será que isso é ruim? É na construção e no questionamento que a autora de Madeixas e O desejo de Nina, traz para as páginas de suas 2 obras, discussões que fazem parte da nossa realidade como adultos, assim como das reflexões que esses pequenos rebentos farão sobre suas vivencias no futuro.

Morando na Austrália desde de 2014, além de escrever, a autora realiza encontros  de Contações de Histórias, espalhando conhecimento a moda antiga, onde a fala e a extroversão dão lugar ao silêncio e monotonia das telas dos computadores. Veja o que rolou nesse papo:

Como surgiu a ideia de escrever sobre esses temas?

 

Eu sempre escrevi. Fui daquelas adolescentes que escrevia diários. Ao todo 10, um por ano. No Brasil tenho publicações acadêmicas e também de contos, micro contos e crônicas em livros publicados com outros autores.

Quando me mudei para a Austrália em 2014 precisei me reinventar, neste processo encontrei o tédio e este me levou a criar.

Há uma falta imensa de livros em português na Austrália como também não existem eventos de Contação de História para crianças como no Brasil. Assim, decidi que criaria os meus próprios livros e Contações.

 

Como você acha que esse projeto dialoga com as questões sobre a diversidade que observamos hoje?

 

Meus livros infantis falam sobre diversidade, O Madeixas conta a história de uma criança negra, com cabelos muito curiosos que coletam relíquias e peças preciosas.

O Desejo de Nina conta sobre uma menina em cadeira de rodas que quer ser uma sereia.

A analogia com a questão da diversidade é óbvia, no entanto nós adultos ainda temos muita dificuldade em discutir sobre o tema abertamente. Para conversar sobre o assunto precisamos rever nossas questões mais íntimas e deixar de lado a opinião pessoal para  olhar o todo, olhar de fora, para poder agir pontualmente.

A questão da diversidade está na mídia e ganhando cada vez mais espaço, mas sua progressão para uma mudança efetiva socialmente ainda é muito lenta, os livros deixam uma mensagem no subconsciente, eles permitem reflexões e trazem perguntas e isto é um ganho incrível.

 

 

Como é a reação das mães e das crianças?

 

Trabalhar com crianças é maravilhoso, elas são espontâneas, sinceras e objetivas. Fazem perguntas sobre como a menina se transforma numa sereia ou como querem que seus cabelos também saiam em busca de objetos preciosos.

As famílias acolhem as questões das crianças, no entanto raramente tecem comentários sobre o conceito do livro por si mesmas. Elas sempre falam sobre o que as crianças percebem dos livros ou sobre os comentários que escutam.

 

Falar sobre deficiência física, tons de pele, racismo, igualdade econômica e social, minorias e privilégios é algo ainda tão difícil, pois nos faz refletir sobre privilégios, escolhas e história de vida.

 

 

Qual a maior dificuldade que encontra em empreender nesse segmento?

 

Eu sou uma autora independente que publica livros infantis em Inglês e em Português fora do Brasil, então preciso ser muito pró-ativa.

A comunidade brasileira na Austrália e a comunidade australiana são muito abertas e acolhedoras ao meu trabalho. Faço apresentações de Contação de História e vendo os livros em Português e em Inglês em Sydney, Brisbane e Sunshine Coast, aonde moro atualmente.

O livro O Desejo de Nina foi patrocinado pela ABCD (Association for Bilingual Brazilian Children Development), uma organização sem fins lucrativos que ministra aulas para crianças australianas-brasileiras em Sydney. 

O mesmo livro conseguiu o patrocínio para a versão em inglês da P2P (Parent to Parent), uma outra organização sem fins lucrativos que dá suporte as famílias de crianças com deficiência.

Para promover os livros eu criei as Contações de História, que estão deslanchando por si próprias e acabam levando os livros a tira colo.

Tudo isto dá um trabalhão, para um livro acontecer eu sigo uma série de passos: escrever a história, contratar uma ilustradora, imprimir o livro, buscar patrocinador, adaptar o livro e produzir a Contação de história, construir cenários, ensaiar, vender os livros, vender o evento. Uff!

 

Já passou por alguma situação complicada ou até preconceituosa relacionadas aos temas que aborda?

 

 Sim e por incrível que pareça não veio de nenhuma criança ou família que participou dos meus eventos, mas sim de duas editoras, uma no Brasil e uma nos EUA.

As duas editoras se preocuparam muito com o livro Madeixas por ele falar de cabelos e a personagem principal ser uma menina negra, pois eu poderia sofrer retaliações por ser uma autora branca ou por falar de cabelos que é um tema de grande preocupação para a comunidade brasileira.

Não preciso dizer que meu queixo caiu. Meu mari

do é de família quilombola, livros são feitos para reflexão e os cabelos da Madeixas, para bom entendedor, fazem um paralelo com a criatividade, vivacidade e curiosidade das crianças. Não seria interessante entender cabelos como pensamentos? Quanto mais domamos os nossos cabelos e a nossa aparência, menos autênticas seremos. O Brasil é uma país machista, preconceituoso e que possui uma porcentagem altíssima de ações violentas contra as mulheres. Não seria interessante criar um terreno fértil para as meninas se sentirem seguras e felizes em seus corpos desde a infância?

 

"Pelo visto vou ter que escrever um livro explicando o que está por trás da história do livro. Ai, os adultos"

 

Para quem quiser adquirir os livros: 

 

turapaula@gmail.com

FB Paula Tura

Instagram paula.tura

www.paulatura.com

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Please reload

Posts em destaque

Curadoria Inclusiva - Hering por Meu Corpo é Real

November 26, 2018

1/1
Please reload

Posts Recentes
Please reload

  • Facebook - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle