Desafios e caminhos para o mercado de Moda Inclusiva

July 25, 2019

 

 

créditos da foto: Revista Grazie e Alex Bramall

 

Como Designer de Moda e pesquisadora de Moda Inclusiva há 6 anos, existe uma pergunta que sempre faço as empresas que trabalham neste setor. Quais os desafios enfrentados para se manter no mercado? Em uma pesquisa realizada com seis empresas de Moda Inclusiva de fora do país, a maioria dos proprietários informaram que atingir público suficiente que viabilize a produção de novas coleções periodicamente e a preço competitivo é o principal desafio. Explicaram que devido a não terem um amplo número de clientes é difícil fazer coleções sazonais, pois não é viável economicamente, o que faz com que ofereçam produtos que não mudam muito de estilo ao longo do tempo.

Alguns empresários relataram ações para tentar vencer estes desafios: parcerias com instituições de amparo ou ensino a pessoas com deficiência, ações de marketing, associação com grandes empresas que reforcem o nome de empresas dedicadas ao vestuário funcional, estar habilitados a oferecer produtos para vários países e exportá-los, inserir as peças em lojas multimarcas ou lojas de produtos ortopédicos e para reabilitação.

Os proprietários destacam, também, que desenvolver soluções para cada tipo de deficiência é um desafio. São muitas as deficiências, doenças e síndromes que levam a padrões corporais que poderiam ser auxiliados por vestuários funcionais. Algumas são raras e esporádicas em sua manifestação e não existem produtos comerciais que as atendam, sendo desenvolvidos e produzidos sob medida, exigindo pesquisa e elevando os valores.

Após conversas e reflexões percebi que partindo do princípio que quanto mais público a empresa atender, mais chances ela tem de vender. Uma possível solução para os desafios mencionados é especializar-se em um segmento de produtos, comercializando, por exemplo, só calça jeans, ou só ternos ou, ainda, somente vestidos.

 

Com o aumento da especialização e qualidade do produto pode-se atingir outros segmentos que consomem o mesmo produto, aumentando a clientela. Um exemplo: Ao invés de vender todos os tipos de roupas para pessoas usuárias de cadeira de rodas a empresa pode vender apenas calças jeans, atender o amplo público e também ter modelos com ajustes para pessoas usuárias de cadeira de rodas, tornando-se uma empresa especializada em calça jeans e inclusiva.

Quando se diminui a variedade de produtos é possível especializar-se mais em um único produto, desenvolvendo-o com mais qualidade e virando referência naquele segmento. Um exemplo é a empresa Blank Label, especializada em ternos e camisas masculinas, não sendo seu foco produzir vestuários funcionais ou inclusivos. A empresa trabalha com a Customização em Massa e, dentro deste modo de produção,

 

créditos da foto: revista Grazie e Alex Bramall.                                             ela solicita as medidas dos clientes

 

as preferências de design (tecidos, tipo e tamanho de fecho...), conseguindo oferecer produtos de uma grade pronta ou personalizados.

Desta maneira a empresa alcança um maior grupo de clientes (de corpo atlético, com sobrepeso, com amputação, com diferentes níveis de poder aquisitivo...), produzindo mais e deixando os produtos com um preço mais acessível do que produtos feitos sob medida, viabilizando, também, uma maior variedade de produtos.

Outro desafio reportado pelos proprietários de empresas de Moda Inclusiva foi encontrar um modelo de marketing apropriado a esta categoria de produtos. Isto pode ser um desafio, pois na medida em que se divulga vestuários só para pessoas com deficiência ela deixa de ser

inclusiva para ser exclusiva. Bem como muitas vezes o foco passa a ser a deficiência, e não a tão buscada eficiência, criando um estigma quanto aos produtos.

Algumas empresas indicaram que comunicar a funcionalidade de cada peça é outro desafio. Verificou-se que é necessário trabalhar a comunicação com o cliente pelo site, pelas mídias sociais, por e-mail e mesmo nas etiquetas das peças, com acessibilidade para informações em tinta e Braille, utilização de QR Code e funcionários treinados em Libras e conhecedores das características dos produtos.

São muitos os desafios encontrados, mas fico feliz de ver a cada ano novas empresas de Moda Inclusiva surgindo e se mantendo no mercado de moda brasileiro. Eu acredito que o ideal seria que todas as empresas pudessem pensar no desenho universal, e produzir, ainda que 10% das peças de suas coleções para inclusão, desta maneira não precisariam existir lojas inclusivas exclusivas, e idosos e pessoas com deficiência teriam mais variedade de produtos a sua disposição, e com preços mais acessíveis.

 Créditos da foto: OKI Connected print

 

As pesquisas realizadas ao longo dos anos mostraram que para pessoas com uma ampla gama de deficiência os produtos de moda sofrendo alterações simples de modelagem e na escolha dos tecidos e aviamentos passariam a lhes atender com maestria. São pessoas com deficiências severas e acamadas que normalmente precisam de roupas sob medida, e geralmente desenvolvidas com a colaboração dos cuidadores.

Enquanto a Moda Inclusiva não é amplamente produzida e comercializada acredito ser fundamental que algumas empresas se dediquem a produção para inclusão, sejam roupas prontas, customizadas em massa ou sob medida. Nosso país tem quase um quarto da população com deficiência (IBGE, 2010) e acredito que os estilistas e designers de moda podem colaborar produzindo para um público real, bem como é sensato que as empresas se preocupem menos em deprimir seus clientes com padrões e mais em empoderá-los com uma moda democrática e inclusiva.

 

Autora:

 

Dr. Bruna Brogin

 

Doutora em Design pela Universidade Federal do Paraná (2019). Realizou estágio doutoral na Sapienza Università di Roma (2017). Mestre em Gestão do Design pela Universidade Federal de Santa Catarina (2015). Especialista em Design Experiencial pela Universidade Federal de Santa Catarina (2014). Graduada em Design de Moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2011). Professora de Moda e Vestuário em diferentes universidades do Paraná.

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