O poder da moda como um fenômeno social

November 7, 2019

 

A moda é um fenômeno social. Nos vestimos para estarmos presentes nos espaços e as semelhanças em estilos nos ajudam a criar pertencimentos diversos; a nossa cidade, nosso estado, nossa turma de amigos, nosso trabalho. Muitos eteceteras podem ser colocados aqui. Moda não é só roupa. Trata-se de um fenômeno social. A moda que escolhemos formata nosso estilo de vida, ouso dizer.

E se nossos estilos nos ajudam a nos ligar uns aos outros, é importante que possamos ter acesso aos bens desse universo. Traduzindo meu argumento, é preciso que possamos comprar roupas, sapatos, maquiagens, acessórios… Cada um desses itens é um adjetivo que nos ajuda a escrever nossa identidade. Essa construção da identidade nasce no interior mas precisa transbordar para o exterior, de modo que nos identificamos e nos acolhemos uns nos outros.

Já imaginou se esse processo de usar a moda como construção do ser que somos e depois, encontrar nossos iguais, não pudesse ser feito? Já imaginou viver uma vida onde a compra de uma simples blusa de alcinha torna-se um caminho aflitivo porque não existe roupa que possa cobrir nosso corpo de maneira harmoniosa? Pois eu te digo, com base na minha experiência, que esta é a realidade de milhares de brasileiros que vivem com suas deficiências específicas. Entre esses milhares, eu estou.

 

Se não nos sentimos parte de algo, nos sentimos sozinhos e desamparados. As ligações afetivas que podem nascer de preferências parecidas de estilo nos ajudam a entender o mundo. Também podem nos ajudar a entender quem somos. Se o ser humano é um ser social, imagina o dano causado por qualquer quebra durante esse processo? Imagina como é ruim depender de alguém para abotoar uma calça jeans? Se existem formas mais fácies, como o velcro, porque elas não aprecem nas vitrines e prateleiras das lojas?

Porque não é esperado que um corpo com deficiência veja na moda um artifício para construção de ser. Nós somos invisíveis para a indústria porque temos demandas específicas. Porque não somos iguais. Somos “fora do padrão”. Destoamos. Dissonantes. Existe a ideia de que é muito mais barato cortar cinquenta blusas iguais e que uma adequação pode encarecer a peça. Mentira! O que falta é entender que nós somos diferentes, assim como vocês também são. Falta humildade para perceber que o meu corpo não é menos digno que o seu, apenas porque ele tem um joelho torno. 

 

 

Eu usei a moda para me construir como mulher. Existem muitas outras mulheres com deficiência fazendo o mesmo caminho. Colocar meu corpo em uma loja para buscar a mais nova tendência da moda é um ato de resistência pura, simples, visceral. Diz da minha vontade de ser, estar e pertencer. Talvez eu seja muito otimista, mas tendo a achar que, se mais pessoas como eu tiverem a mesma ideia, as coisas podem melhorar. Devagarinho, passinho por passinho… 

Corpo é resistência. Moda é resistência. Eu sou resistência. Sigamos.

 

 

Autora:

 

 

Mariana Silva

 

é jornalista especializada em Moda, mestranda em Comunicação Social pela UFMG e cantora nas horas vagas.

 

 

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