O poder da moda como um fenômeno social


Foto de Mariana que  é uma mulher com deficiência branca, magra de cabelos curtos. Ela esta de costas para a câmera, e anda em uma rua  de paralelepípedos bem arborizada. Mariana veste uma regata justa preta e uma saia justa preta até a canela e um tênis branco.

A moda é um fenômeno social. Nos vestimos para estarmos presentes nos espaços e as semelhanças em estilos nos ajudam a criar pertencimentos diversos; a nossa cidade, nosso estado, nossa turma de amigos, nosso trabalho. Muitos eteceteras podem ser colocados aqui. Moda não é só roupa. Trata-se de um fenômeno social. A moda que escolhemos formata nosso estilo de vida, ouso dizer.

E se nossos estilos nos ajudam a nos ligar uns aos outros, é importante que possamos ter acesso aos bens desse universo. Traduzindo meu argumento, é preciso que possamos comprar roupas, sapatos, maquiagens, acessórios… Cada um desses itens é um adjetivo que nos ajuda a escrever nossa identidade. Essa construção da identidade nasce no interior mas precisa transbordar para o exterior, de modo que nos identificamos e nos acolhemos uns nos outros.

Já imaginou se esse processo de usar a moda como construção do ser que somos e depois, encontrar nossos iguais, não pudesse ser feito? Já imaginou viver uma vida onde a compra de uma simples blusa de alcinha torna-se um caminho aflitivo porque não existe roupa que possa cobrir nosso corpo de maneira harmoniosa? Pois eu te digo, com base na minha experiência, que esta é a realidade de milhares de brasileiros que vivem com suas deficiências específicas. Entre esses milhares, eu estou.

foto de Mariana em plano médio com fundo desfocado do alto da cidade. Ela se apoia em uma grade e sorri de boca fechada. Ela usa uma regata preta, um relógio e uma pulseira no braço a direita na foto e um brinco de argola.

Se não nos sentimos parte de algo, nos sentimos sozinhos e desamparados. As ligações afetivas que podem nascer de preferências parecidas de estilo nos ajudam a entender o mundo. Também podem nos ajudar a entender quem somos. Se o ser humano é um ser social, imagina o dano causado por qualquer quebra durante esse processo? Imagina como é ruim depender de alguém para abotoar uma calça jeans? Se existem formas mais fácies, como o velcro, porque elas não aprecem nas vitrines e prateleiras das lojas?

Porque não é esperado que um corpo com deficiência veja na moda um artifício para construção de ser. Nós somos invisíveis para a indústria porque temos demandas específicas. Porque não somos iguais. Somos “fora do padrão”. Destoamos. Dissonantes. Existe a ideia de que é muito mais barato cortar cinquenta blusas iguais e que uma adequação pode encarecer a peça. Mentira! O que falta é entender que nós somos diferentes, assim como vocês também são. Falta humildade para perceber que o meu corpo não é menos digno que o seu, apenas porque ele tem um joelho torno.

Eu usei a moda para me construir como mulher. Existem muitas outras mulheres com deficiência fazendo o mesmo caminho. Colocar meu corpo em uma loja para buscar a mais nova tendência da moda é um ato de resistência pura, simples, visceral. Diz da minha vontade de ser, estar e pertencer. Talvez eu seja muito otimista, mas tendo a achar que, se mais pessoas como eu tiverem a mesma ideia, as coisas podem melhorar. Devagarinho, passinho por passinho…

Corpo é resistência. Moda é resistência. Eu sou resistência. Sigamos.

Autora:

Mariana Silva

é jornalista especializada em Moda, mestranda em Comunicação Social pela UFMG e cantora nas horas vagas.

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